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A rádio portuguesa e a guerra civil de Espanha

 

 

Na praia onde esteve instalado o campo de concentração de Argeles, França, uma placa comemorativa reza:

“A todos los españoles que lucharon por la libertad.

Hombre libre, recuerda”

 

     Portugal sai da revolução de 28 de Maio de 1926, socialmente instável. Revoltas no Porto em 1927, Lisboa em 1928, na Madeira, Açores, S. Tomé e Guiné entre Abril e Maio de 1931, e o levantamento da Marinha Grande em Janeiro de 1934, são a face mais visível do desagrado popular. Este clima de luta política era mantido por operários, sindicalistas e estudantes.

     Quase em simultâneo com a revolta insular, a 12 de Abril de 1931, proclama-se em Espanha a segunda república que tinha uma forte inclinação socialista.

      A União Soviética, inspiração dos regimes socialistas da altura, enviou dirigentes do Komintern para Madrid para aconselhamento do governo, estes agentes rapidamente criaram relações privilegiadas com o Partido Comunista Português – o maior adversário do sistema governativo português.

     O novo regime espanhol ameaçava de facto a estabilidade da ditadura militar, ligações entre sindicalistas e anarco-sindicalistas portugueses com organizações espanholas, como a “Confederación Nacional de Trabajadores” e a “Federação Anarquista Ibérica”, faziam recear outras revoltas, e o governo português não tardou a reagir.

     A União Nacional - partido no poder em Portugal – denuncia logo no dia 13 de Abril a séria ameaça à independência nacional, por parte de Espanha, e a maior parte da imprensa portuguesa alinhou pela mesma bitola - naquela altura os jornalistas portugueses podiam ser isentos, desde que não fossem contra a doutrina do estado.

     Certo era que Espanha tinha mais com que se preocupar do que com anexar Portugal, pelo que em momento algum esteve em perigo a independência readquirida à quase 300 anos. Estava sim em causa a continuidade de um regime totalitário ideologicamente tocado pela extrema-direita e pelo clero.

     1933, é o ano da afirmação do Estado Novo, Salazar vê consolidado o poder depois de ter sido a única figura sobrevivente dos vários governos que se seguiram ao 28 de maio.

     Já como presidente do Concelho de Ministros, Salazar tentou uma aproximação ao governo espanhol. É que se não gostava do governo de esquerda vigente em Espanha, não podia ignorar as teorias dos radicais de direita que advogavam a tese do federalismo ibérico, segundo o qual, os dois estados seriam fundidos num só.

     A aproximação entre governos seria tentada pelo ministro dos negócios estrangeiros, Armindo Monteiro, que chega a ir a Madrid em 1935, mas qualquer acordo entre os dois países seria inviabilizado quando a 16 de Fevereiro de 1936, a Frente Popular espanhola - uma coligação de partidos republicanos, socialistas e comunistas - vence as eleições contra as forças conservadoras reunidas na Confederación Española de Derechas Autonomas (CEDA).

     Os diários do Porto do dia 17 de Julho de 1936, apresentavam uma entrevista com o General José Sanjurio, em que o militar declarara ignorar a origem do «boato fantasioso» que o dava como prestes a entrar em Espanha para chefiar um movimento revolucionário tendente a derrubar o governo da Frente Popular, chefiado por Casares Quiroga.

     Apesar das declarações do General exilado, no dia seguinte, 18 de Julho de 1936, em Melilla, no Rif, em Tetuan e em Larache, e por todo o Marrocos espanhol, dá-se um levantamento militar, chefiado por um militar natural de El Ferrol, de Nome Francisco Franco.

     Salazar rompe as relações com o governo de Madrid a 23 de Outubro de 1936, mas só as anuncia ao povo português a 31 de Outubro. O governo insurreccional só seria reconhecido a 28 de Abril de 1938.     

     O estado português perante a cena internacional mantinha-se neutral – pois era pressionado pelas potências europeias nesse sentido – mas essa neutralidade era apenas aparente, internamente nada fazia para impedir os apoios portugueses aos nacionalistas chefiados por Franco e chegava, inclusive, a incentivá-los.

     Se bem que a Emissora Nacional não apoiasse directamente os nacionalistas espanhóis, as noticias veiculadas pela E.N. davam a conhecer apenas uma parte do conflito, a que interessava ao governo português e sempre em contra-informação das noticias veiculadas pelas rádios espanholas republicanas. As outras emissoras portuguesas, por força de uma censura férrea, tinham de seguir a mesma orientação.

     Com o desenrolar do conflito, o Major Jorge Botelho Moniz, um dos militares da revolução de 28 de Maio - presidente do Rádio Clube Português e amigo de Oliveira Salazar -  decide levar avante a criação de um corpo de milícias portuguesas, os Viriatos, para intervir ao lado dos Nacionalistas, Salazar sabendo disto deixou simplesmente que a ideia prosseguisse, mas descartou-se de responsabilidades.

 

        Major Jorge Botelho Moniz (1)

     O apelo à mobilização é feito a 28 de Agosto de 1936, no Campo Pequeno, em Lisboa, num comício anticomunista. Nesse comício o Major Botelho Moniz discursa perante milhares de pessoas e afirma Vai começar a guerra santa, a guerra de todos os instantes. Vai começar a cruzada heróica para a qual chamamos os portugueses(...). Nós, nacionalistas, somos legião e somos portugueses. Constituamos a «Legião Portuguesa», a legião onde só entram «portugueses», mas que fica aberta a todos os portugueses, leais, disciplinados, dignos e honrados que aceitam como lema «pela Família, pela Pátria, pela Civilização Lusitana».

     O Rádio Clube Português foi durante o conflito civil espanhol a voz mais activa, embora também a Rádio Luso, que era financiada pelo regime Nazi da Alemanha, e a Invicta Rádio que estava ligada ao regime, fossem difusoras da propaganda de Franco em Lisboa e no Porto.

          No Porto o Comandante Henrique Galvão dava palestras, aos microfones da Invicta Rádio. Estas palestras chamavam a atenção dos ouvintes para o perigo que vinha de Espanha pela mão dos republicanos que, segundo ele, ameaçavam a soberania nacional. Muitas outras palestras destinadas a Espanha foram proferidas em Castelhano. Henrique Galvão, nos anos 30, ainda estava longe dos ideais que o levariam, nos anos 60, a desviar o paquete “Santa Maria”.

     Foi através do Rádio Clube Português que melhor se fazia sentir o apoio Luso aos falangistas. A organização de vários comboios de abastecimentos, por esta estação emissora, e a propaganda pró-franquista foram uma ajuda preciosa aos revoltosos.

Os nacionalistas espanhóis tinham emissões desde o R.C.P. em castelhano, feitas pela voz de Marisabel de La Torre de Colomina, que se tornou o símbolo emblemático do apoio daquela emissora aos rebeldes franquistas. A revista “Rádio semanal”, uma publicação da Emissora Nacional, dedica a Marisabel a primeira página do número de Setembro e uma reportagem alargada sobre o R.C.P. e a influência que esta locutora espanhola exercia, tanto em Espanha como em Portugal.

     As emissões para Espanha eram regulares e o indicativo que se fazia ouvir era “CT1 GL – R.C.P. – Parede – Lisboa – Portugal”.

     Devido a este conflito e à tomada de partido pelo R.C.P., foi criado em Portugal o primeiro serviço noticioso regular. O R.C.P. tinha vários postos de escuta para ouvir as emissões provenientes de Espanha e das outras estações emissoras da Europa que noticiavam o conflito, toda esta informação era filtrada e retransmitida pelo R.C.P..

     Consequência desta tomada de partido, às 23 horas do dia 20 de Janeiro 1937 o emissor de 5 kW do “R.C.P.” sofre um atentado com uma bomba relógio. Não houve danos pessoais mas os estragos foram de vulto, passadas vinte e quatro horas as emissões são retomadas.

     Se o Rádio Clube Português era uma voz para Espanha, a Emissora Nacional era uma voz para o povo português. As palestras proferidas aos microfones da E.N. sobre o conflito em Espanha, eram contra o perigo “vermelho” espanhol e a favor dos falangistas, que se batiam pela defesa dos valores da “civilização cristã ocidental”, e pela “defesa da integridade nacional, ameaçada pelo avanço comunista na Península Ibérica”.

    A Rádio Renascença começou a emitir experimentalmente em 1936, e nesse ano foi convidada pela Comissão Internacional Católica de Radiodifusão a participar juntamente com outras emissoras católicas da Europa numa audiência papal, onde se discutiria, entre outros assuntos, o avanço do comunismo, que era visto pela Igreja como um inimigo da fé.

     Com as dificuldades de comunicação com o resto da Europa, por causa do conflito espanhol, e também com os parcos recursos financeiros que a Rádio Renascença tinha, nenhum representante da emissora esteve na reunião.

          Com a informação fortemente condicionada pela censura, não era possível descrever os factos com isenção. Com o desenrolar da Guerra Civil Espanhola era cada vez mais notório que  as rádios portuguesas se inclinavam a favor de Franco, isto permitiu apoios a anarquistas portugueses exilados em Barcelona, um bastião da república espanhola, criarem a «Rádio revolução», popularmente conhecida como «Rádio Fantasma».

     Da «Rádio revolução» não ficou nenhum registo sonoro, nem arquivos. Sabe-se por testemunhos indirectos que anarquistas emigrados em Espanha organizaram esta  estação de rádio que não tinha emissões regulares. (Perdigão,1988)

      A guerra civil espanhola acabaria por despoletar uma «guerra radiofónica» entre algumas emissoras portuguesas, que estavam ao lado dos revoltosos juntamente com as estações espanholas nas mãos dos falangistas, e as rádios espanholas nas mãos dos republicanos.

       Claudio Sánchez- Albornoz, embaixador espanhol em Portugal, apresentou vários protestos, junto de Oliveira Salazar, contra a actuação do R.C.P. a favor dos revoltosos espanhóis. A estes protestos respondia assim o Ministério dos Negócios Estrangeiros Português: «(...) Trouxe aqui V. Ex.ª, várias vezes, reclamações contra a s emissões do Rádio Clube Português e as atitudes da imprensa nacional e diz agora que: em relação à campanha injuriosa do Rádio Clube Português e da imprensa portuguesa contra o governo de Espanha e da excitação d’aquele ao atentado pessoal contra os funcionários desta embaixada e o Consul de Espanha, também não precisou de ser informado por ninguém.

     Não conseguimos averiguar factor de excitação ao atentado pessoal; sabemos contudo que uma locutora de nacionalidade espanhola, contara, com ar de graça, que um pequeno grupo, principalmente composto de senhoras espanholas, havia tentado encontrar em local público pessoas cujos nomes ou funções não eram referidos nem sequer de modo indirecto.

     Apesar de não se tratar evidentemente de excitação ao atentado pessoal o Ministério interveio para que cessassem quaisquer alusões ao facto referido.

     (...) Mas não tinha razão para ir mais longe V. Ex.ª, que decerto lê a imprensa que se publica nas regiões sujeitas ao Governo de Madrid e que decerto segue as emissões dos postos de Rádio Madrid e Rádio Barcelona – não ignora que naquela e nestes se faz, diariamente contra o Governo português a mais injuriosa campanha.

     E note V. Ex.ª  que todos os jornais que se publicam nas regiões referidas são dominados pelo governo ou por agentes seus. E repare ainda que o Rádio Clube Português é um organismo privado e que as duas emissoras espanholas que mencionei estão sob a imediata direcção oficial. (...)»

     As respostas ao embaixador espanhol sempre propagaram que o R.C.P. era uma instituição privada e que o governo não podia intervir. Isto num país onde a censura era férrea! (Vicente, 2003)

     A guerra civil espanhola terminou oficialmente a 1 de Abril de 1939, assegurando a subida ao poder de Francisco Franco. Foram três anos de conflito que se saldou em centenas de milhares de mortos (há historiadores que falam em mais de um milhão), na sua maior parte civis, e outras centenas de milhares de refugiados – só no campo de Argeles estiveram meio milhão.

     Este conflito onde se enfrentaram milícias alemãs, italianas, portuguesas, soviéticas e voluntários ingleses, americanos, franceses, mexicanos, etc., foi o primeiro ensaio para o próximo conflito mundial, que já se desenhava no horizonte.

 

(1)   Foto publicada na revista «O Tripeiro» 

   

Bibliografia:

 http://1936-1939.blogspot.com/

Perdigão, Rui (1988) O PCP visto por dentro e por fora.

Rosas, Fernando (1992) Nova História de Portugal. Portugal e o estado Novo (1930 -1960). Lisboa. Editorial Presença.

Vicente, António Pedro (2003) Espanha e Portugal - Um olhar sobre as relações peninsulares no século XX. Lisboa. Tribuna da História.

Revista “Rádio Semanal” 12 de Setembro de 1936.

Revista História, n.º 11/12, Agosto/Setembro 1995

Revista “O Tripeiro” Série Nova / ano II/ n.º 2, Março de 1983.

Jorge Guimarães Silva

 

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Ultima actualização: 1 de Novembro de 2004